Segundo Nádia B. Gotlib
(1991, p,12), toda narrativa apresenta uma sucessão de acontecimentos de
interesse humano e tudo “na unidade de uma mesma ação”. Assim, há diversas
maneiras de se construir essa tal “unidade de uma mesma ação”, nesse projeto
humano com uma sucessão de acontecimentos.
Para o conto, não há limites
entre o real e a ficção, pois ele não se refere somente ao acontecimento, já
que não tem compromisso com a realidade. Dessa forma, o conto pode ser criado a
partir de uma invenção.
Estrutura
01. Espaço
• O Espaço deve ser reduzido, no
geral, uma sala, ou mesmo um quarto de dormir, basta para que se organize o
enredo. No máximo, uma casa, uma rua. Um deslocamento maior, o que seria muito
raro, de duas uma: ou a narrativa procura abandonar sua condição de conto, ou
advém da necessidade imposta pelo conflito que lhe serve de base. Portanto, a
ação gera o espaço.
02. Tempo
• O Tempo fica restrito a um
pequeno lapso; horas e, quando muito, dias. Não interessa ao conto o passado ou
o futuro das personagens. Se o contista dilata esse tempo para semanas, meses
etc., parte dele ficará sem carga dramática; ou se trata de um tempo referido:
“passaram-se semanas...”. Esse longo tempo referido aparece, assim, na forma de
síntese dramática.
03. Foco Narrativo
• Já vimos que o conto é
essencialmente objetivo e, por isso, costuma ser narrado na terceira pessoa em
uma dessas situações:
a) O escritor, como observador,
conta a história.
b) O escritor, como observador
analítico ou onisciente (sabedor de tudo), conta história.
Observação: Todavia, a primeira pessoa também pode ser empregada da
seguinte maneira: A personagem principal conta a história; ou uma personagem
secundária conta a história da personagem central.
04. Personagens
• Levando em consideração, as
características de tempo e lugar, o conto só pode estabelecer-se com um
reduzido número de personagens, normalmente duas ou três. Quaisquer outras irão
desempenhar funções secundárias (de ambiente ou cenário social). As personagens
centrais não exibem complexidade de caráter, isto é, são previsíveis em suas
atitudes, pois a brevidade do conto não lhe dá tempo suficiente para mostrar
uma faceta imprevisível. Só não parece possível o conto com uma única
personagem; em todo caso, se apenas uma aparece, outra figura deve estar
atuando ou vir a atuar, direta ou indiretamente, para que se estabeleça o
conflito que gera a história.
05.
O Diálogo
•
O conto tem preferência pelo diálogo direto porque põe o leitor diante dos
fatos, como participante direto e interessado. A comunicação entre o leitor e a
narrativa é instantânea. O indireto aparece menos, e assim mesmo, só nos casos
em que não vale a pena transcrevê-los diretamente.
06. Linguagem
•
A linguagem deve também ser objetiva e utilizar metáforas simples e de imediata
compreensão para o leitor. Deve-se evitar uma quantidade excessiva de palavras
e fluências, principalmente, para dizer coisas de pouca importância, ou de
pouco conteúdo. O conto prefere a concisão na linguagem.
06.
O Epílogo
•
O epílogo corresponde, geralmente, ao clímax da história que, via de regra,
deve ser enigmático, imprevisível e abruptamente revelado para surpreender o
leitor. Contudo, segundo os estudiosos, o cuidado do contista deve estar mais
no inicio da narrativa - das primeiras linhas depende o futuro do conto - do
que em terminá-lo.
Pois, se o leitor se deixa prender desde o começo irá, por
certo, até o fim. Caso contrário, desistirá. De qualquer maneira, as primeiras
linhas seduzem e atraem o leitor e o epílogo contém a chama que lhe dá o
êxtase.
Algumas
dicas importantes:
Tom
Wolfe lista quatro técnicas tomadas de empréstimo ao romance para fazer uma boa
narrativa:
(1)
a narração da história a partir das
cenas, e não de resumos;
(2)
a preferência pelos diálogos em
detrimento do discurso indireto;
(3)
a apresentação de eventos sob a
ótica de um dos participantes da cena, e não a partir de uma perspectiva
impessoal;
(4)
a incorporação de detalhes sobre
aparência, roupas, posses, linguagem corporal, etc. que indiquem classe,
caráter, status e situação social dos participantes, conforme a técnica do
romance realista.
Inspiração
ou como começar uma história?
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Sean
Connery na versão cinematográfica de O Nome da Rosa: contexto deriva da ideia
|
Quando cogitou fazer O Nome da
Rosa, Umberto Eco imaginou como criar em forma de texto (Pós-escrito a O Nome
da Rosa, Nova Fronteira, 1985).
Um pescador está à margem
esquerda de um rio, anzol de prontidão. Se ele faz isso sempre, ser pescador
implica ter toda uma sequência meio que inevitável de atitudes e gestos, pensa
Eco. Nós a descrevemos. O personagem se desenha.
Se ele tem um jeitão agressivo e
a ficha suja na polícia, temos um começo de personalidade e nós acrescentamos
isso ao texto, talvez num ritmo mais lento e fluvial nas passagens que
descrevem a pesca, talvez aos sobressaltos na hora de falar de seu temperamento,
sugere Eco.
De todo modo, o pescador está lá.
Espera o peixe fisgar a isca. É sua rotina diária, paciente. Não há uma
história a contar aqui, mesmo com um tipo de algum modo interessante, paciente
e irascível. O personagem, afinal, faz o que foi talhado a fazer, como todo dia
em que pesca. É preciso complicar as coisas.
Eco imagina um corpo levado pela
correnteza quando o pescador está naquele rio. Algo perturbou a sua rotina.
Mesmo assim, ele poderia ficar lá parado, indiferente, cuidando da própria vida,
que tem mais o que fazer (pescar ou não se comprometer, pois tem a ficha suja).
Também não teremos uma história
se só isso acontecer. A aventura começa quando um fato perturbador da rotina de
alguém faz esse alguém encarar um desafio que, de outro modo, não o faria. O
corpo no rio pode, por exemplo, ter alguma ligação com o pescador. Ser uma
antiga namorada, talvez um amigo que fugira há décadas da cidade e não deveria
estar na região. Talvez pior. Pode ser o cadáver do homem que ele odiava. O que
ele faz? Foge? Sai calmamente como se nada tivesse acontecido? Mas e se ele foi
visto e implicado no caso?
O ponto que queremos defender num
texto é como o pescador de Umberto Eco. Para que o ponto de vista dele seja
convincente, é preciso construir o contexto em que ele se move. Qualquer
argumento, para ser defendido, vai exigir outros argumentos de apoio, senão a
realidade que ele representa será capenga. Não mate uma ideia porque não quis
desenvolver o raciocínio que ela requer.
(Revista Língua Portuguesa – Edição 66)
Criar a partir de uma imagem
O
diretor polonês Andrzej Wajda (do clássico Danton, com Gerard Depardieu)
lembra, em Um Cinema
Chamado Desejo (Campus, 1989), que só faz sentido contar uma
história porque ela encena algo que queremos comunicar. Para terem impacto, as
ideias precisam encontrar forma.
Wajda
sempre se incomodara com aqueles conjuntos habitacionais padronizados e
apertados, fileiras de caixas de fósforos gigantes, amontoadas. A sensação de
opressão, achava ele, não poderia ser só dita, deveria ser sentida. Era preciso
encontrar a devida expressão, mas o diretor não encaixava uma história que
desse dimensão do que sentia ante esses aglomerados humanos sem personalidade.
Um dia encontrou sua história.
Um dia encontrou sua história.
Um
ator russo almoçava com a equipe de um filme de Wajda. Goles a mais, conta um
caso que lhe ocorrera. Numa noitada, conhecera uma jovem. A noite avançara e,
bêbados, os dois terminam no quarto da moça, no qual o rapaz garante ter tido a
noite mais impressionante de sua vida, e acredita ter sido correspondido. A
experiência foi tal que o desperta do efeito lânguido em que estava. Alta
madrugada, ele não consegue dormir.
Pacientemente,
o rapaz vê surgirem os raios do dia. Quer fumar. Não tem cigarros. A mulher, a
quem nem perguntara o nome, dorme um sono tão tranquilo que ele acha melhor não
acordá-la. Veste a roupa, desce a escada, sai à rua, entre um amontoado desses
prédios caixas de fósforo. Enquanto dobra esquinas à procura de mercearias,
sente-se extasiado.
Após
muito caminhar, compra um maço numa loja. Perdera a noção de tempo e espaço,
consumido que estava em seus pensamentos. É quando se dá conta de que não sabia
mais qual era o prédio em que a mulher de sua vida morava.
Nunca
mais o ator conseguiu achá-la.
Pense
no que este personagem deve ter passado. Acreditando-se que a mulher da
história também vivenciara experiência tão intensa quanto a dele, imagine o que
deve ter passado pela cabeça dela ao acordar sozinha. A história do ator russo
encarna o vazio existencial de uma arquitetura opressiva e niveladora. O relato
na superfície se atém à descrição dos incidentes e atos dos personagens, um
caso de desilusão. Mas na verdade o que está sendo posto em cena é a angústia
da vida moderna.
Desde
as parábolas de Cristo, a narrativa clássica nos ensina o valor de contar uma
história na superfície, mas dizer também outra coisa além dela. É preciso saber
o que se deseja dizer, que imagem queremos criar na mente do leitor ou que
mensagem queremos deixar.
Diga
o que tem a dizer e pare. Antes, porém, dê ao leitor algo que o faça pensar e
encerre seu texto com uma mensagem consistente. Ofereça a ele algo que o
surpreenda. Um desafio, uma sugestão de ação ou solução de problema. Conduza
seu leitor a uma possibilidade de ação.
(Revista Língua Portuguesa – Edição 66)
Roteiro
antes de iniciar a narrativa
Antes de começar seu texto, é preciso usar a
imaginação. Pegue um papel e escreva o que vai auxiliá-lo a construir a sua
história:
1. Quem são essas personagens?
2. Você dará nome a eles ou vai preferirá metaforizá-los, negando-lhes uma identidade, ao mesmo tempo em que, por isso mesmo, eles passem a simbolizar todos os homens e mulheres na mesma situação?
3. Qual a história que viveram? Por que a circunstância inicial é tão marcante na vida deles?
4. Deixe sua imaginação correr solta: que história é essa que poderia ter sido e que não foi?
5. Quais obstáculos surgem na vida destes personagens?
6. Qual o espaço que ocupam no momento em que nos são mostrados? Descreva-o, mas não os detalhe a ponto de perder parágrafos inteiros com eles.
7. Qual o tempo que você focalizará? Voltar o tempo a um início que você não conhece, mas presume, pode ser um bom começo.
8. Antes de desenvolver a narrativa, imagine o desfecho dela. Deixe pistas sutis deste desfecho desde o início. Se o conto for bom, o leitor pode relê-lo e descobrir, encantado, que, afinal, “tudo se encaixa”.
2. Você dará nome a eles ou vai preferirá metaforizá-los, negando-lhes uma identidade, ao mesmo tempo em que, por isso mesmo, eles passem a simbolizar todos os homens e mulheres na mesma situação?
3. Qual a história que viveram? Por que a circunstância inicial é tão marcante na vida deles?
4. Deixe sua imaginação correr solta: que história é essa que poderia ter sido e que não foi?
5. Quais obstáculos surgem na vida destes personagens?
6. Qual o espaço que ocupam no momento em que nos são mostrados? Descreva-o, mas não os detalhe a ponto de perder parágrafos inteiros com eles.
7. Qual o tempo que você focalizará? Voltar o tempo a um início que você não conhece, mas presume, pode ser um bom começo.
8. Antes de desenvolver a narrativa, imagine o desfecho dela. Deixe pistas sutis deste desfecho desde o início. Se o conto for bom, o leitor pode relê-lo e descobrir, encantado, que, afinal, “tudo se encaixa”.
(Fonte:
http://www.algosobre.com.br/redacao/planejando-um-texto-narrativo.html)
Exemplos
Ilustres
PASSEIO NOTURNO – PARTE I
Rubem Fonseca
Cheguei em casa carregando a pasta
cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha
mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira,
disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da
casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música
quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou
minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a
relaxar.
Fui para a biblioteca, o lugar da
casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de
pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você
não para de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e
ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso
mandar servir o jantar?
A copeira servia à francesa, meus
filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho
que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro
quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor.
Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta. Vamos dar uma
volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei
que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro
custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos
bens materiais, minha mulher respondeu.
Os carros dos meninos bloqueavam a
porta da garagem, impedindo que eu tirasse o meu. Tirei os carros dos dois,
botei na rua, tirei o meu, botei na rua, coloquei os dois carros novamente na
garagem, fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado,
mas ao ver os para-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo de
aço cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na
ignição, era um motor poderoso que gerava a sua força em silêncio, escondido no
capô aerodinâmico. Saí, como sempre sem saber para onde ir, tinha que ser uma
rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas. Na avenida Brasil,
ali não podia ser, muito movimento. Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de
árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande
diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso
sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia
ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela
caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de
padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores
na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma
grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu
que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no
meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um
pouco mais sobre a esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto
partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um
foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para
o asfalto. Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em nove segundos.
Ainda deu para ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar,
colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casa de subúrbio.
Examinei o carro na garagem. Corri
orgulhosamente a mão de leve pelos para-lamas, os para-choques sem marca.
Poucas pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha habilidade no uso daquelas
máquinas.
A família estava vendo televisão.
Deu a sua voltinha, agora está mais calmo?, perguntou minha mulher, deitada no
sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou dormir, boa noite para todos, respondi,
amanhã vou ter um dia terrível na companhia.
AMANHÃ SERÁ DIFERENTE
Final de reunião. O paletó parecia
pesar dois quilos. A gravata o enforcava. Tantos anos e somente agora percebia.
Pensou em dar uma olhada na agenda. Talvez o outro dia fosse mais calmo.
Reunião com vendedores, almoço com sócios, organizar contratos, jantar
beneficente. Sentia-se culpado. Sua vida não seria assim. A culpa não era dele,
era do passado.
Chegou em casa. Parecia invisível.
A mulher no telefone: “Você viu a Soraya? Ganhou um carro novo e uma viagem
para a Europa do marido. Queria estar no lugar dela”. Todos na sua casa não
passavam de uns ingratos. Conforto, carros, casas de praia, iate novo. O que
mais queriam? Ouviu vozes e música que vinham da piscina. Era seu filho com os
amigos playboyzinhos. Devia ser a quarta festinha nessa semana.
O jantar estava servido. Sentou-se.
Não estava mais sozinho. Sentia-se em casa. Finalmente. Seus irmãos não sabiam
usar todos aqueles talheres e pratos. Seus pais somente sorriam. Pareciam
orgulhosos do filho. Nunca tinham visto tanto luxo. De repente todos
desapareceram. Devia ter trabalhado muito.
O quarto parecia grande demais. A
casa também. Acalmou-se com um copo de uísque. Depois mais dois, três e quatro
copos. Novamente viu-se à frente do gringo. O seu revólver apontava para o meio
do peito do estrangeiro. Queria a pasta que o homem recebera do tráfico. Só no
papo, não seria possível consegui-la. Veio a imagem do seu primeiro negócio,
aos 23 anos. Queria que seus pais e irmãos vissem como ele estava indo bem. Não
fosse a tragédia. Malditos homens, me queriam e não eles.
Era madrugada. A casa estava cheia
de pessoas importantes. Amigos e sócios da empresa. Todos perplexos com o
suicídio. A viúva ajeita o cabelo para a foto do jornal.
(Fernanda Q. de Araújo)
Honra
Mês passado Zé
agrediu um militar reformado, daqueles que exibem seus distintivos à revelia e
que são suspeitos de terem dado cabo em várias pessoas. Anteontem foi jurado de
morte por um de seus credores, cujo apelido não me recordo (Carcará, eu acho).
A quantia era irrisória, mas parece que
Zé dá calotes por prazer.
‘Foi há três verões. Ele nem se
lembra mais!’
‘O senhor soube esperar o momento
certo!’
‘Tudo tem sua hora, filho!’
É final de tarde. Estamos à mesa de
um bar. O sol certamente está grudado no horizonte – não vai embora nunca! O
mormaço traz mau cheiro de urina e vômito oriundos do banheiro.
Tomo dois goles seguidos de cerveja,
pra aliviar. ‘Cerveja se toma em pequenos goles! Um por um!’ diz papai.
Sentados à outra mesa estão: um homem de barba grande e mal cuidada, fumante,
fala pouco; outro homem bem mais velho, careca, que usa um colar grosso,
dourado, que combina com seu sorriso; e uma mulher trajando roupas vulgares,
não está com nenhum, mas dá chances aos dois. Ela é quem manda descer as
cervejas, fala alto e ininterruptamente.
As outras duas mesas do bar estão
vazias.
Já é noite fechada, mas é como se o
imponente astro amarelo estivesse presente. Quando faço uma pergunta a papai
sobre como era sua vida com mamãe a resposta que tenho é um sussurro seu: ‘lá
vem ele!’ É impressionante a perspicácia de papai, sabia que Zé passaria por
ali.
‘O que faz por estas bandas, meu
amigo?!’ Zé pergunta cinicamente.
‘Quem é vivo sempre aparece!’
‘Pois é, eu achei que você havia
morrido!’
‘Bate na madeira. Que ideia é essa,
homem?!’
‘Ouvi dizer que parou de jogar!’
‘É verdade! Agora só jogo por
diversão! Senta aí!’
Peço outra cerveja e um copo para
Zé. Em pouco tempo só ele tem a palavra em nossa mesa. Fala muito. Fala sobre
vários assuntos, no entanto, quando descreve suas hábeis fugas de situações
difíceis, seus olhos fundos até brilham. Nem se preocupa em limpar a saliva
acumulada nos cantos da boca. Papai troca algumas palavras com ele, é
atencioso. Eu me limito a ouvir. Fato curioso é o de Zé ficar observando o que acontece
ao nosso redor enquanto conversa.
‘Vamos ao pano verde?’ Zé convida.
‘Claro, faço questão de pagar!’
prontifica-se papai.
Agora estou ao balcão do bar,
assistindo às bolas serem encaçapadas. No som ambiente, uma música de melodia
simples e letra sobre traição. Zé vibra com o jogo, parece estar mais a vontade
entre paredes. Papai o disseca em vida com seu olhar. O dono do bar nota, mas
deve pensar que a expressão é devido a papai perder a maioria das partidas.
Ouço um barulho que vem de fora do bar – Zé também percebe. É apenas um cão
revirando lixo acumulado em um canto. Olho a outra mesa ocupada do bar. A
falante está sentada no colo do coroa, acariciando-lhe. O barbudo não está mais
com eles.
É madrugada. A euforia de Zé
diminui, dá sinais de cansaço.
‘Tenho que ir embora!’
‘Preciso ir também!’ diz papai
tirando a carteira do bolso.
‘Foi um prazer lhe rever, amigo!’
‘O prazer foi todo meu, Zé!’ diz
papai ao lhe apertar a mão.
Papai recebe o troco no momento em
que Zé começa a descer a rua, rumo sua casa. Passamos pela mesa do careca, que
agora está debruçado sobre sua mesa, só. Pegamos a rua em sentido contrário ao
de Zé. Temos que correr: é preciso tirar a diferença de uma quadra. Zé ainda
não havia virado a esquina de sua rua quando alcançamos as árvores frente sua
casa. Ótimo. Temos, assim, tempo para recuperar nosso fôlego (o barulho de
nossa respiração poderia estragar tudo). Faz frio. Finalmente avistamos a
silhueta de Zé, anda rápido, constantemente olha para trás. Ao chegar bem próximo
a nós, papai sai detrás das árvores e Zé, pela primeira vez, o olha nos olhos.
Vejo papai levar uma das mãos à boca de Zé e cravar-lhe o punhal com a outra.
Zé cai ao chão, rígido. Seus olhos fundos estão abertos, sem vida. A saliva nos
cantos da boca. Papai vem até mim, olha-me nos olhos:
‘Filho, nunca deixe de honrar sua
palavra!’
(William
Rosa)
Proposta
A partir do trecho dado, de autoria de Machado de
Assis, dê sequência à história de modo a criar um conto.
Tinham os mesmos nomes.
Cresceram juntos, à sombra do mesmo amor materno. Ele era órfão, e a mãe dela,
que o amava como se ele fora seu filho tomou-o para si, e
reuniu os dois debaixo do mesmo olhar e dentro do mesmo coração. Eram quase
irmãos, e sêlo-iam sempre completamente, se a diferença dos sexos não
viesse, um dia, dizer-lhes que um laço mais íntimo podia uni-los.
Um dia .....
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