quarta-feira, 10 de julho de 2013

AUGUSTO DOS ANJOS – EU E OUTRAS POESIAS

A poesia sincrética de Augusto dos Anjos:

 
 


 
O poeta paraibano Augusto dos Anjos, nascido em Engenho do Pau d’Arco, PB, 20 de abril de 1884, representa caso único na Literatura brasileira pelo sincretismo de seus poemas, causando grande estranhamento quando de sua publicação. De vida pessoal atribulada, formado em Direito em Recife, professor na Paraíba, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, em Leopoldina, onde morreu, a 12 de novembro de 1914 sem o reconhecimento do público, o que veio mais tarde: Eu é um dos livros de poesia mais editados do Brasil.
 
Augusto do Anjos publicou um único livro Eu, em 1912, mas após sua morte o crítico e amigo Órris Soares reuniu os poemas avulsos e deu à obra o titulo definitivo Eu e outras poesias. O livro compõe-se em sua maior parte de sonetos ao lado de poemas longos, reflexivos, como As Cismas do Destino, e sua marca principal é o sincretismo, ou seja, não há uma abordagem única, mas uma mistura de tendências. Augusto dos Anjos prende-se às tendências do século XIX, seguindo o modelo tradicional do soneto, o rebuscamento da linguagem, características parnasianas, o cientificismo do Naturalismo, o pessimismo decadentista, típico do Simbolismo, influência da filosofia de Schopenhauer, que pregava o aniquilamento da vontade própria como saída para o Eu. Por outro lado, inova por introduzir o mau gosto, o apoético, o anti-lirismo, causando a sensação de desconforto, de estranhamento na leitura de seus poemas, este aspecto evidencia o Expressionismo, vanguarda modernista de origem alemã, estudada no Modernismo. A originalidade de sua poesia valeu-lhe críticas negativas na época, devido ao gosto parnasiano do público da Belle Époque brasileira, que admirava Olavo Bilac.
 
- TEXTOS:

 
Monólogo de uma sombra

 
“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
 
A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
(...)
 
 
Era a elegia panteísta do Universo,
Na produção do sangue humano imenso,
Prostituído talvez, em suas bases...
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.
 
E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
até que minha efêmera cabeça,
Reverta à quietação da trava espessa
E à palidez das fotosferas mortas!



Agonia de um filósofo
 
Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
 
Assisto agora à morte de um inseto!...
Ah!todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de polo a polo
O ideal do Anaximandro de Mileto!
 
No hierático areópago heterogêneo
Das ideias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...
 
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!
 
O Morcego
 
Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus!E este morcego!E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
 
“Vou mandar levantar outra parede...”
-- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
 
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
 
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!


 
A Ideia
 
De onde ela vem?!De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
 
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
 
Delibera, e depois, quer e executa!
Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...
 
Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!
 
Psicologia de um vencido

 
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
 
Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
 
Já o verme -- este operário das ruínas --
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
 
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
 
O Deus-Verme
 
Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme -- é o seu nome obscuro de batismo.
 
Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.
 
Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão..
.
Ah!Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!
 
 
 
 
Versos íntimos

 
Vês!Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão -- esta pantera --
Foi tua companheira inseparável!
 
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
 
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
o beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
 
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
 
O meu nirvana

 
No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!
 
Nessa manumissão schopenhauereana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Ideia Soberana!
 
Destruída a sensação que oriunda fora
Do tato -- ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebeias –
 
Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Ideias!
 
 
Budismo moderno
 
Tome, Dr., esta tesoura, e...corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!
 
Ah!Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!
 
Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;
 
Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!
 


As cismas do destino
 
I
 
Recife, Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!
 
Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia... O calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio alvo.
 
Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!
 
A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Caía um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!
(...)
 
 
 
 
O mundo resignava-se invertido
Nas forças principais do seu trabalho...
A gravidade era um princípio falho,
A análise espectral tinha mentido!
 
O Estado, a Associação, os Municípios
Eram mortos. De todo aquele mundo
Restava um mecanismo moribundo
E uma teleologia sem princípios.
 
Eu queria correr, ir para o inferno,
Para que, da psique no oculto jogo,
Morressem sufocadas pelo fogo
Todas as impressões do mundo externo!
 
Mas a Terra negava-me o equilíbrio...
Na Natureza, uma mulher de luto
Cantava, espiando as árvores sem fruto.
A canção prostituta do ludíbrio.


 

A meretri

A rua dos destinos desgraçados

Faz medo. O Vício estruge. Ouvem-se os brados

Da danação carnal... Lúbrica, à lua,

Na sodomia das mais negras bodas

Desarticula-se, em coreias doudas,

Uma mulher completamente nua
 

É a meretriz que, de cabelos ruivos,

Bramando, ébria e lasciva, hórridos uivos

Na mesma esteira pública, recebe,

Entre farraparias e esplendores,

O eretismo das classes superiores

E o orgasmo bastardíssimo da plebe!

(...)

Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto,

Mordeu-lhe a boca e o rosto...

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Ser meretriz depois do túmulo!A alma

Roubada a hirta quietude da urbe calma

onde se extinguem todos os escolhos:

E, condenada, ao trágico ditame,

Oferecer-se à bicharia infame

Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos!

 

Sentir a língua aluir-se-lhe na boca

E com a cabeça sem cabelos, oca...

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Na horrorosa avulsão da forma nívea

Dizer ainda palavras de lascívia

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Estrofes Sentidas

 

Transponho assim toda a sombria escarpa

Sinistro como quem medita um crime...

E quando a Dor me dói, tanjo minha harpa

E a harpa saudosa a minha Dor exprime

 

Estes versos de amor que agora findo

Foram sentidos na solidão de uma horta,

À sombra dum verdoengo tamarindo

Que representa a minha infância morta!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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