terça-feira, 16 de abril de 2013

Proposta de redação - Crônica Argumentativa

Crônica Argumentativa

“O cronista do jornal é como cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha e vai” (Rubem Braga)

Conceituação

A característica mais relevante de uma crônica é o propósito com que ela é escrita. Seu eixo temático é sempre em torno de uma realidade social, política ou cultural. Essa mesma realidade é avaliada pelo autor da crônica e uma opinião é formulada, quase sempre com um tom de protesto ou de argumentação. Por vezes, assume um tom até mesmo sarcástico, no intento de criticar ou revelar as mazelas sociais. A crônica argumentativa é aquela na qual o objetivo maior do cronista é relatar um ponto de vista diferente do que a maioria consegue enxergar.

Características

ü  Apresentação do assunto ou controvérsia a ser discutida, normalmente, no início do texto;

ü  Tratamento subjetivo do tema, deixando perpassar a sensibilidade e as emoções do cronista;

ü  Linguagem criativa e figurada, geralmente de acordo com o padrão culto informal da língua.

ü  A crônica argumentativa visa a apresentar a opinião do autor, sem obrigatoriamente buscar convencer o leitor.

ü  Exposição de argumentos que fundamentam o ponto de vista do autor;

ü  Conclusão surpreendente, criativa, ou conclusão-síntese, que retoma as ideias do texto e confirma o ponto de vista defendido.

 

Exemplos Ilustrativos

Bullying de gente grande

Não gosto do conceito de bullying e do uso que temos feito dessa palavra. Eu já disse isso e reafirmo em nossa conversa de hoje.

Por que tenho rejeição em relação ao conceito? Porque ele leva o adulto a se ausentar das questões que os mais novos enfrentam na convivência com seus iguais.

É como se nada do comportamento manifestado pelas crianças --nos conflitos, nas provocações, brigas e desavenças, nos apelidos e nas piadas a respeito de aparência-- tivesse relação com o mundo adulto.

E mais: é como se elas fossem totalmente responsáveis por tudo o que fazem. De errado, é claro. O conceito nos permite, portanto, ficar de fora desses problemas. Talvez por isso mesmo faça tanto sucesso entre nós, adultos.

E o que dizer, então, do uso da palavra? Temos uma especial atração pelo exagero nessa questão.

Uma criança pequena que é mordida pelo colega na escola, um primo que zomba do outro que perdeu o jogo, a criança que usa óculos e ganha um apelido por isso... tudo agora é transformado no tal do bullying.

Bem, mas encontrei um bom uso para essa palavra e esse conceito -e é disso que vou falar hoje. Trata-se do bullying de adultos contra crianças e adolescentes.

Outro dia ouvi a mãe de uma menina chamá-la de "anta" e dizer que ela só fazia coisas erradas.

Ainda ouvi a garota responder, com cara de choro, que não havia feito o que fizera por querer... Havia errado tentando acertar. Isso é bullying, concorda leitor?

Uma criança humilhada por alguém contra quem não pode ou não consegue se defender pode muito bem ser assim entendido.

(...)

Talvez esteja na hora de fazermos um acordo no mundo adulto: o de só falarmos do bullying entre os mais novos quando controlarmos nosso próprio comportamento e pararmos com essa história de humilhar, depreciar, excluir, intimidar e agredir, velada ou escancaradamente, as crianças e os adolescentes.

(Rosely Sayão, http://www1.folha.uol.com.br/colunas/roselysayao/1240878-bullying-de-gente-grande.shtml, publicado em 05/03/2013, acesso em 05/03/2013)

 

O Inferno de Disney

A Disney é um conceito apavorante de infância organizado em um sistema angustiante de filas

Por doze anos recusei levar meu filho à Disney. Uma convicção estética inarredável orientava a minha negação. Nessas férias, porém, uma viagem ao México com escala em Miami amoleceu meu coração de mãe.

No dia 24 de janeiro do fatídico ano de 2012, abandonei os maias e a esplendorosa península do Yucatán para entrar em um avião rumo à Orlando. A temporada de cinco dias na Flórida foi comparável aos círculos de sofrimento de "A Divina Comédia", de Dante.

Como Deus ora pelos inocentes, meu rebento menor, de três, caiu com 39 graus de febre no aeroporto de Cancún. A milagrosa virose o deixou de molho nas primeiras 72 horas de aflição na América, enquanto eu e o maior adentrávamos as profundezas da terra onde os sonhos se tornam realidade.

O Limbo, primeiro círculo de penitência, se apresentou na forma de montanhas-russas colossais que comprimem os sentidos a forças G inimagináveis. Deixei meus neurônios serem prensados contra a parede do crânio em loopings cadenciados, até ser cuspida tal e qual um zumbi agastado, tomado por abobamento crônico.

As máquinas medievais de martírio causam náusea, vômito e enxaqueca.

Para os que preferem sofrer ao rés do chão, simuladores provocam a mesma sensação de abismo sem saírem do lugar em que estão.

Na sétima hora do dia, enquanto era sugada, no lugar da chupeta, por uma Maggie Simpson descomunal, eu já não falava e nem me mexia. Caí dura no resort de golfe, "wonder land" da terceira idade muito frequente na região.

A Flórida é o último refúgio dos que viveram até a aposentadoria.

Abri o olho e reneguei assistir a tormenta das baleias cativas nos tanques do Sea World. Atrás de motivos para ser castigada, fui arrastada às compras por um furacão chamado luxúria.

Usufruímos o céu nublado da Universal da tarde seguinte. O ar de quermesse do parque vazio, o clima ameno e o Harry Potter nos fizeram crer na alegria infantil dos americanos. Driblamos bem a comida intragável, servida em porções individuais que alimentariam tribos inteiras. O jejum é dádiva quando se encara as aves inchadas a hormônio e o teor transgênico das lanchonetes. Orlando é a cidade campeã da obesidade mórbida; o Lago de Lama dos que sucumbiram à gula.

A última alvorada foi dedicada à Disney. O sol brilhou no sábado de inverno, atraindo a multidão bíblica que lotou os milhões de metros quadrados de hotéis, zoológicos e parques temáticos; interligados por rodovias, hidrovias e ferrovias futuristas.

A Disney é um conceito apavorante de infância organizado em um sistema angustiante de filas. É o ante-inferno dos indecisos que aguardam em caracóis indianos uma satisfação que nunca chega.

Você anseia para ter o direito de aguardar em pé, agarrada à democrática senha que só amplia a espera. A jornada se esvai em uma azucrinante administração de tickets. A condenação à eterna expectativa seria até suportável, não fosse o suplício sonoro.

Como vespas a picar os tímpanos, a voz aguda das musiquinhas enjoadas, os "cling", "cleng", "glom" das engenhocas de ferro e a proliferação de musicais da Broadway, encabeçados pelo grande show do castelo da Cinderela, são de perder a razão. E mesmo durante o safari, única esperança de silêncio ecológico, o timbre de buzina da guia aspirante à atriz vinha pinçar os nervos.

A comparação entre a delicadeza do Caribe mexicano e a artificialidade embalada em plástico de Orlando foi um choque e tanto.

Antes de partir, visitei o paraíso. Um pântano na zona rural povoado por crocodilos, peixes e pássaros semelhante ao gigantesco charco que Walt Disney adquiriu há décadas atrás.

Em paz, no meio da lagoa virgem, me perguntei o porquê da zona urbana daquele lugar manifestar um prazer masoquista tão arraigado.

Talvez seja culpa pelo excesso de ofertas nos supermercados, pela invenção do papel higiênico felpudo, do "super size" tudo, dos veículos alcoólatras e das cidades sem pedestres. A insustentável fartura social se penitencia tomando sustos em trem fantasmas mirabolantes.

Não é diversão, é dívida cristã. A Disney nasceu na Idade Média.

(Fernanda Torres, Folha de S. Paulo, 17/02/2012)

Proposta de Redação

 



Alunos da USP ficam pelados em trote para hostilizar feministas em São Carlos

William Maia

Do UOL, em São Paulo

Um trote organizado por veteranos da USP (Universidade de São Paulo) em São Carlos terminou em baixaria na tarde da última terça-feira (26). Alguns alunos chegaram a ficar pelados e fizeram gestos obscenos para hostilizar um grupo de feministas que protestava contra o "Miss Bixete", espécie de concurso de beleza a que as calouras são submetidas.

As estudantes, membros da Frente Feminista de São Carlos, reclamam da forma como as novatas são tratadas. Segundo elas, os veteranos obrigam as calouras a desfilar e mostrar os seios. Haveria também uma prova em que as estudantes competem para ver quem chupa primeiro um picolé, simulando sexo oral.

"É uma exposição absurda das meninas. Por mais que elas não sejam obrigadas fisicamente a participar, há uma grande pressão dos veteranos, e das veteranas também, para que elas façam aquelas coisas", afirmou a estudante Loiane Vilefort, integrante do movimento, que tentou convencer as calouras a não participar do trote.

Apesar de ocorrer dentro da sede do Caaso (Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira), o evento é organizado por um grupo autônomo de alunos que se autodenomina GAP (Grupo de Apoio à Putaria), que realiza festas e outros eventos estudantis.

O estudante Rafael Serres, presidente do Caaso, disse ao UOL que a direção do centro acadêmico não apoia o "Miss Bixete" por considerá-lo um ato de "machismo e preconceito". "Inclusive, desde o ano passado nós organizamos um trote paralelo, pacífico, justamente para que as pessoas não participem do Miss Bixete", disse.

Por meio de nota, a direção da USP São Carlos afirmou que é "veementemente contra qualquer ação que cause constrangimento" e que abrirá procedimento administrativo para identificar os envolvidos.

 Proposta

A partir da notícia acima, elabore uma crônica argumentativa sobre o episódio da USP em São Carlos, revelando o que se esconde por trás da “inocente brincadeira” dos veteranos. Para isso, procure considerar a posição do psicólogo Contardo Calligaris:


 

“O que mais importa, na iniciação, é que o calouro sinta na pele os efeitos do poder que o grupo exerce ou pretende exercer sobre todo o resto da sociedade.” (Contardo Calligaris)

4 comentários:

  1. Post muito bom, estava procurando uma proposta e explicação clara sobre a crônica. Estou me preparando para o vestibular da Unicamp e tento ver um pouco de cada gênero. Aceito dicas (cn-gustavo@hotmail.com)

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    1. Olá Gustavo,
      Obrigada! Logo enviarei algumas dicas para o seu e-mail!
      Abraços!

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    2. Olá, também estou me preparando para o vestibular da Unicamp! Será que poderia enviar essas dicas para o meu e-mail também? bia_bgpb@hotmail.com
      Obrigada!

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    3. Assim que tiver um tempinho enviarei as dicas a vc e ao Gustavo. Obrigada pela visita!

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