quarta-feira, 9 de maio de 2012

A estrutura narrativa do conto


Segundo Nádia B. Gotlib (1991, p,12), toda narrativa apresenta uma sucessão de acontecimentos de interesse humano e tudo “na unidade de uma mesma ação”. Assim, há diversas maneiras de se construir essa tal “unidade de uma mesma ação”, nesse projeto humano com uma sucessão de acontecimentos.
Para o conto, não há limites entre o real e a ficção, pois ele não se refere somente ao acontecimento, já que não tem compromisso com a realidade. Dessa forma, o conto pode ser criado a partir de uma invenção.

Estrutura
01. Espaço
• O Espaço deve ser reduzido, no geral, uma sala, ou mesmo um quarto de dormir, basta para que se organize o enredo. No máximo, uma casa, uma rua. Um deslocamento maior, o que seria muito raro, de duas uma: ou a narrativa procura abandonar sua condição de conto, ou advém da necessidade imposta pelo conflito que lhe serve de base. Portanto, a ação gera o espaço.
02. Tempo
• O Tempo fica restrito a um pequeno lapso; horas e, quando muito, dias. Não interessa ao conto o passado ou o futuro das personagens. Se o contista dilata esse tempo para semanas, meses etc., parte dele ficará sem carga dramática; ou se trata de um tempo referido: “passaram-se semanas...”. Esse longo tempo referido aparece, assim, na forma de síntese dramática.
03. Foco Narrativo
• Já vimos que o conto é essencialmente objetivo e, por isso, costuma ser narrado na terceira pessoa em uma dessas situações:
a) O escritor, como observador, conta a história.
b) O escritor, como observador analítico ou onisciente (sabedor de tudo), conta história.
Observação: Todavia, a primeira pessoa também pode ser empregada da seguinte maneira: A personagem principal conta a história; ou uma personagem secundária conta a história da personagem central.
04. Personagens
• Levando em consideração, as características de tempo e lugar, o conto só pode estabelecer-se com um reduzido número de personagens, normalmente duas ou três. Quaisquer outras irão desempenhar funções secundárias (de ambiente ou cenário social). As personagens centrais não exibem complexidade de caráter, isto é, são previsíveis em suas atitudes, pois a brevidade do conto não lhe dá tempo suficiente para mostrar uma faceta imprevisível. Só não parece possível o conto com uma única personagem; em todo caso, se apenas uma aparece, outra figura deve estar atuando ou vir a atuar, direta ou indiretamente, para que se estabeleça o conflito que gera a história.

05. O Diálogo
• O conto tem preferência pelo diálogo direto porque põe o leitor diante dos fatos, como participante direto e interessado. A comunicação entre o leitor e a narrativa é instantânea. O indireto aparece menos, e assim mesmo, só nos casos em que não vale a pena transcrevê-los diretamente.
06. Linguagem
• A linguagem deve também ser objetiva e utilizar metáforas simples e de imediata compreensão para o leitor. Deve-se evitar uma quantidade excessiva de palavras e fluências, principalmente, para dizer coisas de pouca importância, ou de pouco conteúdo. O conto prefere a concisão na linguagem.

06. O Epílogo
• O epílogo corresponde, geralmente, ao clímax da história que, via de regra, deve ser enigmático, imprevisível e abruptamente revelado para surpreender o leitor. Contudo, segundo os estudiosos, o cuidado do contista deve estar mais no inicio da narrativa - das primeiras linhas depende o futuro do conto - do que em terminá-lo. Pois, se o leitor se deixa prender desde o começo irá, por certo, até o fim. Caso contrário, desistirá. De qualquer maneira, as primeiras linhas seduzem e atraem o leitor e o epílogo contém a chama que lhe dá o êxtase.

Algumas dicas importantes:
Tom Wolfe lista quatro técnicas tomadas de empréstimo ao romance para fazer uma boa narrativa:
(1)  a narração da história a partir das cenas, e não de resumos;
(2)  a preferência pelos diálogos em detrimento do discurso indireto;
(3)  a apresentação de eventos sob a ótica de um dos participantes da cena, e não a partir de uma perspectiva impessoal;
(4)  a incorporação de detalhes sobre aparência, roupas, posses, linguagem corporal, etc. que indiquem classe, caráter, status e situação social dos participantes, conforme a técnica do romance realista.

Inspiração ou como começar uma história?

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Sean Connery na versão cinematográfica de O Nome da Rosa: contexto deriva da ideia
Quando cogitou fazer O Nome da Rosa, Umberto Eco imaginou como criar em forma de texto (Pós-escrito a O Nome da Rosa, Nova Fronteira, 1985).
Um pescador está à margem esquerda de um rio, anzol de prontidão. Se ele faz isso sempre, ser pescador implica ter toda uma sequência meio que inevitável de atitudes e gestos, pensa Eco. Nós a descrevemos. O personagem se desenha.
Se ele tem um jeitão agressivo e a ficha suja na polícia, temos um começo de personalidade e nós acrescentamos isso ao texto, talvez num ritmo mais lento e fluvial nas passagens que descrevem a pesca, talvez aos sobressaltos na hora de falar de seu temperamento, sugere Eco.
De todo modo, o pescador está lá. Espera o peixe fisgar a isca. É sua rotina diária, paciente. Não há uma história a contar aqui, mesmo com um tipo de algum modo interessante, paciente e irascível. O personagem, afinal, faz o que foi talhado a fazer, como todo dia em que pesca. É preciso complicar as coisas.
Eco imagina um corpo levado pela correnteza quando o pescador está naquele rio. Algo perturbou a sua rotina. Mesmo assim, ele poderia ficar lá parado, indiferente, cuidando da própria vida, que tem mais o que fazer (pescar ou não se comprometer, pois tem a ficha suja).
Também não teremos uma história se só isso acontecer. A aventura começa quando um fato perturbador da rotina de alguém faz esse alguém encarar um desafio que, de outro modo, não o faria. O corpo no rio pode, por exemplo, ter alguma ligação com o pescador. Ser uma antiga namorada, talvez um amigo que fugira há décadas da cidade e não deveria estar na região. Talvez pior. Pode ser o cadáver do homem que ele odiava. O que ele faz? Foge? Sai calmamente como se nada tivesse acontecido? Mas e se ele foi visto e implicado no caso?
O ponto que queremos defender num texto é como o pescador de Umberto Eco. Para que o ponto de vista dele seja convincente, é preciso construir o contexto em que ele se move. Qualquer argumento, para ser defendido, vai exigir outros argumentos de apoio, senão a realidade que ele representa será capenga. Não mate uma ideia porque não quis desenvolver o raciocínio que ela requer.

(Revista Língua Portuguesa – Edição 66)
        Criar a partir de uma imagem


O diretor polonês Andrzej Wajda (do clássico Danton, com Gerard Depardieu) lembra, em Um Cinema Chamado Desejo (Campus, 1989), que só faz sentido contar uma história porque ela encena algo que queremos comunicar. Para terem impacto, as ideias precisam encontrar forma.
Wajda sempre se incomodara com aqueles conjuntos habitacionais padronizados e apertados, fileiras de caixas de fósforos gigantes, amontoadas. A sensação de opressão, achava ele, não poderia ser só dita, deveria ser sentida. Era preciso encontrar a devida expressão, mas o diretor não encaixava uma história que desse dimensão do que sentia ante esses aglomerados humanos sem personalidade.

Um dia encontrou sua história.
Um ator russo almoçava com a equipe de um filme de Wajda. Goles a mais, conta um caso que lhe ocorrera. Numa noitada, conhecera uma jovem. A noite avançara e, bêbados, os dois terminam no quarto da moça, no qual o rapaz garante ter tido a noite mais impressionante de sua vida, e acredita ter sido correspondido. A experiência foi tal que o desperta do efeito lânguido em que estava. Alta madrugada, ele não consegue dormir.
Pacientemente, o rapaz vê surgirem os raios do dia. Quer fumar. Não tem cigarros. A mulher, a quem nem perguntara o nome, dorme um sono tão tranquilo que ele acha melhor não acordá-la. Veste a roupa, desce a escada, sai à rua, entre um amontoado desses prédios caixas de fósforo. Enquanto dobra esquinas à procura de mercearias, sente-se extasiado.
Após muito caminhar, compra um maço numa loja. Perdera a noção de tempo e espaço, consumido que estava em seus pensamentos. É quando se dá conta de que não sabia mais qual era o prédio em que a mulher de sua vida morava.
Nunca mais o ator conseguiu achá-la.
Pense no que este personagem deve ter passado. Acreditando-se que a mulher da história também vivenciara experiência tão intensa quanto a dele, imagine o que deve ter passado pela cabeça dela ao acordar sozinha. A história do ator russo encarna o vazio existencial de uma arquitetura opressiva e niveladora. O relato na superfície se atém à descrição dos incidentes e atos dos personagens, um caso de desilusão. Mas na verdade o que está sendo posto em cena é a angústia da vida moderna.
Desde as parábolas de Cristo, a narrativa clássica nos ensina o valor de contar uma história na superfície, mas dizer também outra coisa além dela. É preciso saber o que se deseja dizer, que imagem queremos criar na mente do leitor ou que mensagem queremos deixar.
Diga o que tem a dizer e pare. Antes, porém, dê ao leitor algo que o faça pensar e encerre seu texto com uma mensagem consistente. Ofereça a ele algo que o surpreenda. Um desafio, uma sugestão de ação ou solução de problema. Conduza seu leitor a uma possibilidade de ação.
(Revista Língua Portuguesa – Edição 66)


Roteiro antes de iniciar a narrativa
Antes de começar seu texto, é preciso usar a imaginação. Pegue um papel e escreva o que vai auxiliá-lo a construir a sua história:
1. Quem são essas personagens?
2. Você dará nome a eles ou vai preferirá metaforizá-los, negando-lhes uma identidade, ao mesmo tempo em que, por isso mesmo, eles passem a simbolizar todos os homens e mulheres na mesma situação?
3. Qual a história que viveram? Por que a circunstância inicial é tão marcante na vida deles?
4. Deixe sua imaginação correr solta: que história é essa que poderia ter sido e que não foi?
5. Quais obstáculos surgem na vida destes personagens?
6. Qual o espaço que ocupam no momento em que nos são mostrados? Descreva-o, mas não os detalhe a ponto de perder parágrafos inteiros com eles.
7. Qual o tempo que você focalizará? Voltar o tempo a um início que você não conhece, mas presume, pode ser um bom começo.
8. Antes de desenvolver a narrativa, imagine o desfecho dela. Deixe pistas sutis deste desfecho desde o início. Se o conto for bom, o leitor pode relê-lo e descobrir, encantado, que, afinal, “tudo se encaixa”.
(Fonte: http://www.algosobre.com.br/redacao/planejando-um-texto-narrativo.html)

Exemplos Ilustres

PASSEIO NOTURNO – PARTE I

Rubem Fonseca
           
Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.
Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não para de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar?
A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta. Vamos dar uma volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher respondeu.
Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo que eu tirasse o meu. Tirei os carros dos dois, botei na rua, tirei o meu, botei na rua, coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado, mas ao ver os para-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na ignição, era um motor poderoso que gerava a sua força em silêncio, escondido no capô aerodinâmico. Saí, como sempre sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas. Na avenida Brasil, ali não podia ser, muito movimento. Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto. Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em nove segundos. Ainda deu para ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casa de subúrbio.
Examinei o carro na garagem. Corri orgulhosamente a mão de leve pelos para-lamas, os para-choques sem marca. Poucas pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha habilidade no uso daquelas máquinas.
A família estava vendo televisão. Deu a sua voltinha, agora está mais calmo?, perguntou minha mulher, deitada no sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou dormir, boa noite para todos, respondi, amanhã vou ter um dia terrível na companhia.

AMANHÃ SERÁ DIFERENTE

Final de reunião. O paletó parecia pesar dois quilos. A gravata o enforcava. Tantos anos e somente agora percebia. Pensou em dar uma olhada na agenda. Talvez o outro dia fosse mais calmo. Reunião com vendedores, almoço com sócios, organizar contratos, jantar beneficente. Sentia-se culpado. Sua vida não seria assim. A culpa não era dele, era do passado.
Chegou em casa. Parecia invisível. A mulher no telefone: “Você viu a Soraya? Ganhou um carro novo e uma viagem para a Europa do marido. Queria estar no lugar dela”. Todos na sua casa não passavam de uns ingratos. Conforto, carros, casas de praia, iate novo. O que mais queriam? Ouviu vozes e música que vinham da piscina. Era seu filho com os amigos playboyzinhos. Devia ser a quarta festinha nessa semana.
O jantar estava servido. Sentou-se. Não estava mais sozinho. Sentia-se em casa. Finalmente. Seus irmãos não sabiam usar todos aqueles talheres e pratos. Seus pais somente sorriam. Pareciam orgulhosos do filho. Nunca tinham visto tanto luxo. De repente todos desapareceram. Devia ter trabalhado muito.
O quarto parecia grande demais. A casa também. Acalmou-se com um copo de uísque. Depois mais dois, três e quatro copos. Novamente viu-se à frente do gringo. O seu revólver apontava para o meio do peito do estrangeiro. Queria a pasta que o homem recebera do tráfico. Só no papo, não seria possível consegui-la. Veio a imagem do seu primeiro negócio, aos 23 anos. Queria que seus pais e irmãos vissem como ele estava indo bem. Não fosse a tragédia. Malditos homens, me queriam e não eles.
Era madrugada. A casa estava cheia de pessoas importantes. Amigos e sócios da empresa. Todos perplexos com o suicídio. A viúva ajeita o cabelo para a foto do jornal.
(Fernanda Q. de Araújo)

Honra


Mês passado  Zé agrediu um militar reformado, daqueles que exibem seus distintivos à revelia e que são suspeitos de terem dado cabo em várias pessoas. Anteontem foi jurado de morte por um de seus credores, cujo apelido não me recordo (Carcará, eu acho). A quantia era irrisória, mas parece que Zé dá calotes por prazer.
            ‘Foi há três verões. Ele nem se lembra mais!’
            ‘O senhor soube esperar o momento certo!’
            ‘Tudo tem sua hora, filho!’
            É final de tarde. Estamos à mesa de um bar. O sol certamente está grudado no horizonte – não vai embora nunca! O mormaço traz mau cheiro de urina e vômito oriundos do banheiro.
            Tomo dois goles seguidos de cerveja, pra aliviar. ‘Cerveja se toma em pequenos goles! Um por um!’ diz papai. Sentados à outra mesa estão: um homem de barba grande e mal cuidada, fumante, fala pouco; outro homem bem mais velho, careca, que usa um colar grosso, dourado, que combina com seu sorriso; e uma mulher trajando roupas vulgares, não está com nenhum, mas dá chances aos dois. Ela é quem manda descer as cervejas, fala alto e ininterruptamente.
            As outras duas mesas do bar estão vazias.
            Já é noite fechada, mas é como se o imponente astro amarelo estivesse presente. Quando faço uma pergunta a papai sobre como era sua vida com mamãe a resposta que tenho é um sussurro seu: ‘lá vem ele!’ É impressionante a perspicácia de papai, sabia que Zé passaria por ali.
            ‘O que faz por estas bandas, meu amigo?!’ Zé pergunta cinicamente.
            ‘Quem é vivo sempre aparece!’
            ‘Pois é, eu achei que você havia morrido!’
            ‘Bate na madeira. Que ideia é essa, homem?!’
            ‘Ouvi dizer que parou de jogar!’
            ‘É verdade! Agora só jogo por diversão! Senta aí!’
            Peço outra cerveja e um copo para Zé. Em pouco tempo só ele tem a palavra em nossa mesa. Fala muito. Fala sobre vários assuntos, no entanto, quando descreve suas hábeis fugas de situações difíceis, seus olhos fundos até brilham. Nem se preocupa em limpar a saliva acumulada nos cantos da boca. Papai troca algumas palavras com ele, é atencioso. Eu me limito a ouvir. Fato curioso é o de Zé ficar observando o que acontece ao nosso redor enquanto conversa.
            ‘Vamos ao pano verde?’ Zé convida.
            ‘Claro, faço questão de pagar!’ prontifica-se papai.
            Agora estou ao balcão do bar, assistindo às bolas serem encaçapadas. No som ambiente, uma música de melodia simples e letra sobre traição. Zé vibra com o jogo, parece estar mais a vontade entre paredes. Papai o disseca em vida com seu olhar. O dono do bar nota, mas deve pensar que a expressão é devido a papai perder a maioria das partidas. Ouço um barulho que vem de fora do bar – Zé também percebe. É apenas um cão revirando lixo acumulado em um canto. Olho a outra mesa ocupada do bar. A falante está sentada no colo do coroa, acariciando-lhe. O barbudo não está mais com eles.
            É madrugada. A euforia de Zé diminui, dá sinais de cansaço.
            ‘Tenho que ir embora!’
            ‘Preciso ir também!’ diz papai tirando a carteira do bolso.
            ‘Foi um prazer lhe rever, amigo!’
            ‘O prazer foi todo meu, Zé!’ diz papai ao lhe apertar a mão.
            Papai recebe o troco no momento em que Zé começa a descer a rua, rumo sua casa. Passamos pela mesa do careca, que agora está debruçado sobre sua mesa, só. Pegamos a rua em sentido contrário ao de Zé. Temos que correr: é preciso tirar a diferença de uma quadra. Zé ainda não havia virado a esquina de sua rua quando alcançamos as árvores frente sua casa. Ótimo. Temos, assim, tempo para recuperar nosso fôlego (o barulho de nossa respiração poderia estragar tudo). Faz frio. Finalmente avistamos a silhueta de Zé, anda rápido, constantemente olha para trás. Ao chegar bem próximo a nós, papai sai detrás das árvores e Zé, pela primeira vez, o olha nos olhos. Vejo papai levar uma das mãos à boca de Zé e cravar-lhe o punhal com a outra. Zé cai ao chão, rígido. Seus olhos fundos estão abertos, sem vida. A saliva nos cantos da boca. Papai vem até mim, olha-me nos olhos:
            ‘Filho, nunca deixe de honrar sua palavra!’
(William Rosa)

Proposta
 A partir do trecho dado, de autoria de Machado de Assis, dê sequência à história de modo a criar um conto. 
Tinham os mesmos nomes. Cresceram juntos, à sombra do mesmo amor materno. Ele era órfão, e a mãe dela, que o amava como se ele fora seu  filho tomou-o para si, e reuniu os dois debaixo do mesmo olhar e dentro do mesmo coração. Eram quase irmãos, e sêlo-iam sempre completamente, se a diferença dos sexos não viesse, um dia, dizer-lhes que um laço mais íntimo podia uni-los.
Um dia .....

















 





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