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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Marilia de Dirceu- Tomás Antonio Gonzaga. - Resumo comentado

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Escola literária

ARCADISMO:
 a palavra arcádia, que dá origem a Arcadismo, é grega e designa uma sociedade literária típica da última fase do Classicismo, cujos membros adotam nomes poéticos pastoris, em homenagem à vida simples dos pastores, em comunhão com a natureza. 
O Arcadismo quanto à forma:
  • vocabulário simples
  • frases na ordem direta
  • ausência quase total de figuras de linguagem
  • manutenção de versos decassílabos, do soneto e de outras formas clássicas
O que é um verso decassílabo?
Na poesia, apresenta-se uma melodiosidade na pronúncia, uma cadência, uma forma em que algumas vogais e mesmo sílabas unem-se ao ponto de formarem única sílaba.
Os versos decassílabos, também, são chamados versos heróicos. Recebem o nome de versos heróicos porque, para retratar feitos de países conquistadores e de seus heróis, os poetas procuravam retratar tais feitos em versos decassílabos por serem versos mais destacados, mais atraentes, mais "robustos" e conquistadores do público ouvinte ou leitor.

Exemplo:
Na poesia, nem sempre se conta até a última sílaba. A sílaba mais marcante é a última mais forte, conhecida por sílaba tônica finalizadora do verso, pois é a que marca o fim da cadência. Procurei colocá-la em vermelho.  É até esta sílaba que se conta e se dimensiona o verso. Observa-se, então:


 a. "Contigo dizes, suspirando amores".
  CON / TI / GO / DI / ZES / SUS / PI / RAN / DO + A / MO / RES = 10 sílabas

 O Arcadismo quanto ao conteúdo: 
pastoralismo
fugere urbem
aurea mediocritas
elemento da cultura greco-latina
convencionalismo amoroso 
idealização amorosa
racionalismo
idéias iluministas
carpe diem
II- Cronologia
Início do Arcadismo no Brasil: 1768 - publicação das Obras Poéticas de Cláudio Manuel da Costa
Término: 1836 - publicação de Suspiros Poéticos e
Sa
 
 III-Aspectos biográficos – reflexos da vida do poeta em sua obra
O poeta Tomás Antônio Gonzaga, patrono da cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras, nasceu na cidade do Porto, em Portugal, a 11 de agosto de 1744 e faleceu na Ilha de Moçambique, onde cumprira pena de degredo, em fevereiro de 1810.
Quando concebeu as primeiras liras de Marília de Dirceu, Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu é seu pseudônimo), então com aproximadamente 40 anos, vivia no Brasil e gozava de estabilidade econômica, pois ocupava um alto cargo judiciário.
 
Nesse contexto, apaixona-se por Maria Dorotéia (a quem cabe o pseudônimo Marília), adolescente com pouco mais de 17 anos. Porém, o envolvimento com a Inconfidência Mineira, somado à relação tumultuada que tinha com as autoridades locais (Luís da Cunha Meneses, o governador satirizado em Cartas Chilenas) leva Gonzaga à prisão e, posteriormente ao exílio em Moçambique.
A interferência desses fatos no poema em estudo fica evidente. Como vamos ver em seguida, há uma grande diferença entre o equilíbrio objetivo da primeira parte e o sentimentalismo melancólico do segundo momento da obra.

Estrutura - A obra se divide em 3 partes:
Primeira parte (1792) – Composta por 33 liras, mostra o poeta apaixonado, otimista, fazendo planos para uma vida conjugal harmoniosa. Aqui se revelam com mais intensidade as tradições árcades.
Segunda parte (1799) Composta por 38 liras, revela um homem angustiado, envelhecendo e, sobretudo, sentindo-se injustiçado na prisão, longe de sua amada. Com a vazão aos sentimentos do poeta, podemos afirmar o caráter Pré-Romântico da obra.
 Terceira parte (1812) É uma coletânea de textos. Envolve 8 liras que não figuraram nas partes anteriores da obra, e textos que teriam sido escritos antes do envolvimento amoroso com Maria Dorotéia (1 canção, 15 sonetos e 1 ode).

RESUMO E ANÁLISE DE MARÍLIA DE DIRCEU
Primeira parte – Convencionalismo amoroso 
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’ expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores, que habitam este monte,
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela! 

O poeta, dirigindo-se à Marília, se apresenta exaltando qualidades que o fariam digno do amor da donzela: sua condição social, seu aspecto físico e suas habilidades. Isso é feito em um cenário típico do Arcadismo: a atmosfera bucólica, o ideal de vida simples, pastoril.
 Lira 2
Pintam, Marília, os Poetas
A um menino vendado,
Com uma aljava de setas,
Arco empunhado na mão;
Ligeiras asas nos ombros,


O tenro corpo despido,
E de Amor, ou de Cupido
São os nomes, que lhe dão.

Porém eu, Marília, nego,
Que assim seja Amor; pois ele
Nem é moço, nem é cego,
Nem setas, nem asas tem.
Ora pois, eu vou formar-lhe
Um retrato mais perfeito,
Que ele já feriu meu peito;
Por isso o conheço bem.[...]
 

Uma característica árcade é o uso de alusões mitológicas, que retomam a Antiguidade Clássica. Aqui, o poeta personifica o amor na figura do cupido. A seguir o poeta faz uma detalhada descrição física de Marília e arremata:

Tu, Marília, agora vendo
De Amor o lindo retrato,
Contigo estarás dizendo,
Que é este o retrato teu.
Sim, Marília, a cópia é tua,
Que Cupido é Deus suposto:
Se há Cupido, é só teu rosto,
Que ele foi quem me venceu.
Quanto à descrição física de Marília, observe:

Os teus cabelos são uns fios d'ouro;

Lira 1l
Os seus compridos cabelos,
Que sobre as costas ondeiam,
São que os de Apolo mais belos;
Mas de loura cor não são.
Têm a cor da negra noite;

Surpreso? Nesse trecho evidencia-se o convencionalismo amoroso. Contrasta a Marília ‘real’, menina brasileira de olhos e cabelos escuros com a beleza européia que se costumava cantar, imitando os precursores do estilo Neoclássico.

 
 
Lira 14
Minha bela Marília, tudo passa;
A sorte deste mundo é mal segura;
Se vem depois dos males a ventura,
Vem depois dos prazeres a desgraça.[...]
Ornemos nossas testas com as flores.
E façamos de feno um brando leito,
Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
Gozemos do prazer de sãos Amores.
Sobre as nossas cabeças,
Sem que o possam deter, o tempo corre;
E para nós o tempo, que se passa,
Também, Marília, morre.

O poeta reflete sobre a passagem do tempo e propõe à Marília que aproveitem o momento presente. Trata-se da versão neoclássica do Carpe diem, tema já explorado pelo barroco.

Lira 22
Tu não habitarás palácios grande,
Nem andarás no coches voadores;
Porém terás um Vate, que te preze,
Que cante os teus louvores.
O tempo não respeita a formosura;
E da pálida morte a mão tirana
Arrasa os edifícios dos Augustos,
E arrasa a vil choupana.
Que belezas, Marília, floresceram,
De quem nem sequer temos a memória!
Só podem conservar um nome eterno
Os versos, ou a história.
Nesse trecho o poeta evidencia sua concepção de indivíduo ilustrado. Reafirma o ideal de vida simples e prefere ao poder e à riqueza, a glória de eternizar em versos a beleza de Marília.
Essa idéia é ratificada na lira 27, em que o poeta se considera verdadeiro herói por ter conquistado sua musa.
 
O ser herói, Marília, não consiste
Em queimar os Impérios: move a guerra,
Espalha o sangue humano,
E despovoa a terra
Também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
E tanto pode ser herói pobre,
Como o maior Augusto.
Eu é que sou herói, Marília bela,
Segundo da virtude a honrosa estrada:
Ganhei, ganhei um trono,
Ah! não manchei a espada,
Não roubei ao dono.
Ergui-o no teu peito, e nos teus braços:
E valem muito mais que o mundo inteiro
Uns tão ditosos laços.

Para finalizar, na lira 33 o poeta pede a seu amigo Glauceste (Cláudio Manuel da Costa) que cante e pinte a figura de Marília.
Pega na lira sonora,
Pega, meu caro
Glauceste;
E ferindo as cordas de ouro,
Mostra aos rústicos Pastores
A formosura celeste
De Marília, meus amores.
Ah! pinta, pinta
A minha Bela!
E em nada a cópia
Se afaste dela.

Segunda parte – Vazão aos sentimentos
(Tendências
Pré-Romanticas)
Lira 1 
Já não cinjo de louro a minha testa;
Nem sonoras canções o Deus me inspira:
Ah! que nem me resta
Uma já quebrada,
Mal sonora Lira!
[...]
Mal meus olhos te riam, ah! nessa hora
Teu retrato fizeram, e tão forte,
Que entendo, que agora
Só pode apagá-lo
O pulso da Morte.

Aqui encontramos Dirceu enclausurado, deprimido, sem inspiração. Permanece, porém a lembrança de Marília, que só se apagará com a morte.
Na lira 2, o poeta reclama das injustiças às quais foi submetido e arremata com a célebre passagem:

Eu tenho um coração maior que o mundo!
Tu, formosa Marília, bem o sabes:
Um coração..., e basta,
Onde tu mesma cabes.
 
 
Na lira 3 o poeta angustiado reflete sobre as constantes mudanças da vida e pergunta a Marília por que a sua sorte não muda. Na lira seguinte passa a admitir a mudança do envelhecimento.

Lira 3
Sucede, Marília bela,
À medonha noite o dia;
A estação chuvosa e fria
À quente seca estação.
Muda-se a sorte dos tempos;
Só a minha sorte não?

Lira 4
Já, já me vai, Marília, branquejando
Louro cabelo, que circula a testa;
Este mesmo, que alveja, vai caindo
E pouco já me resta.
As faces vão perdendo as vivas cores,
E vão-se sobre os ossos enrugando,
Vai fugindo a viveza dos meus olhos;
Tudo se vai mudando.

Na lira 12 o poeta não admite a idéia de que sua amada sofra.
Lira 12
Ah! Marília, que tormento
Não tens de sentir saudosa![...]
Quando levares, Marília,
Teu ledo rebanho ao prado,
Tu dirás: “Aqui trazia
“Dirceu também o seu gado.”
Verás os sítios ditosos
Onde, Marília, te dava
Doces beijos amorosos
Nos dedos da branca mão.
Mandarás aos surdos Deuses
Novos suspiros em vão.
[...]
 
 
Aqui observamos também uma característica constante dessa segunda parte: o contraste entre o passado feliz e a tristeza do presente. A lira 15 é ainda mais elucidativa nesse sentido, pois resgata os versos de abertura da primeira parte:
Lira 15
Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro,
Fui honrado Pastor da tua aldeia;
Vestia finas lãs, e tinha sempre
A minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal, e o manso gado,
Nem tenho, a que me encoste, um só cajado.
Para ter que te dar, é que eu queria
De mor rebanho ainda ser o dono;
Prezava o teu semblante, os teus cabelos
Ainda muito mais que um grande Trono.
Agora que te oferte já não vejo
Além de um puro amor, de um são desejo.
A seguir, Dirceu ainda se revela esperançoso:

Ah! minha Bela, se a Fortuna volta,
Se o bem, que já perdi, alcanço, e provo;
Por essas brancas mãos, por essas faces
Te juro renascer um homem novo;



Romper a nuvem, que os meus olhos cerra,
Amar no Céu a
Jove, e a ti na terra.
Fiadas comprarei as ovelhinhas,
Que pagarei dos poucos do meu ganho;
E dentro em pouco tempo nos veremos
Senhores outra vez de um bom rebanho


Entretanto, na lira 20 transparece a insegurança:

Se me viras com teus olhos
Nesta masmorra metido,
De mil idéias funestas,
E cuidados combatido,

Qual seria, ó minha Bela,
Qual seria o teu pesar?

Na lira 33 revelam-se a indignação, o estado físico e a preocupação com a defesa da honra.
Mas vivo neste mundo, ó sorte impia,
E dele só me mostra a estreita fresta
O quando é noite, ou dia.
Olhos baços, e sumidos,
Macilento, e descarnado,
Barba crescida, e hirsuta,
Cabelo desgrenhado;
Ah! que imagem tão digna de piedade!
Mas é, minha Marília, como vive
Um réu de Majestade.
[...]
Tu, Marília, se ouvires,
Que ante o teu rosto aflito
O meu nome se ultraja
C’o suposto delito,
Dize severa assim em meu abono:
“Não toma as armas contra um Cetro justo
“Alma digna de um trono.”

 
Terceira parte
Como já constatamos, trata-se de uma publicação confusa, irregular e, portanto, de menor valor. Ressalvamos, porém, a antológica lira 3, onde o poeta rompe com a condição ideal de pastor, assumindo sua verdadeira condição social e imaginando a vida conjugal com Marília.
Tu não verás, Marília, cem cativos
Tirarem o cascalho, e a rica, terra,
Ou dos cercos dos rios caudalosos,
Ou da minada serra.
Não verás separar ao hábil negro
Do pesado esmeril a grossa areia,
E já brilharem os
granetes de ouro

No fundo da bateia.
Não verás derrubar os virgens matos;
Queimar as capoeiras ainda novas;
Servir de adubo à terra a fértil cinza;
Lançar os grãos nas covas.
Não verás enrolar negros pacotes
Das secas folhas do cheiroso fumo;
Nem espremer entre as dentadas rodas
Da doce cana o sumo.
Verás em cima da espaçosa mesa
Altos volumes de enredados feitos;
 
 
Ver-me-ás folhear os grande livros,
E decidir os pleitos.
Enquanto revolver os meus
consultos.
Tu me farás gostosa companhia,
Lendo os fatos da sábia mestra história,
E os cantos da poesia.
Lerás em alta voz a imagem bela,
Eu vendo que lhe dás o justo apreço,
Gostoso tornarei a ler de novo
O cansado processo.
Duas tendências coexistem nas liras de Gonzaga: 
a] a contenção e o equilíbrio neoclássicos, com a utilização de todos os lugares-comuns do Arcadismo: um pastor, uma pastora, o campo, a serenidade da paisagem principal.
b] o
emocionalismo pré-romântico, na expressão pungente da crise amorosa e, posteriormente a prisão, da crise existencial do poeta.
 
O sujeito lírico é o pastor Dirceu, que confessa seu amor pela pastora Marília. Eis a convenção neoclássica realizada, Mas é evidente que nos pastores se projeta o drama amoroso vivido por Gonzaga e Maria Dorotéia.
A todo momento a emoção rompe o véu da estilização arcádica, brotando, dessa tensão, uma poesia de alta qualidade.

" Eu tenho um coração maior que o mundo
tu, formosa Marília, bem o sabes;
um coração, e basta,
onde tu mesma cabes" 
V- Resumo: As partes da obra:
A obra se divide em duas partes [há uma terceira, cuja autenticidade é contestada por alguns críticos]:
1ª parte: contém os poemas escritos na época anterior à prisão de Gonzaga. Nela predominam as composições convencionais: o pastor Dirceu celebra a beleza de Marília em pequenas odes
anacreônticas. Em algumas liras, entretanto, as convenções mal disfarçam a confissão amorosa do amor: a ansiedade de um quarentão apaixonado por uma adolescente; a necessidade de mostrar que não é um qualquer e que merece sua amada; os projetos de uma sossegada vida futura, rodeado de filhos e bem cuidado por suas mulher etc. 
2ª parte: 
Escrita na prisão da ilha das Cobras. Os poemas exprimem a solidão de Dirceu, saudoso de Marília. Nesta segunda parte, encontramos a melhor poesia de Gonzaga. As convenções, embora ainda presentes, não sustentam o equilíbrio neoclássico. O tom confessional e o pessimismo prenunciam o emocionalismo romântico..
 VI- Considerações finais: 
Em Minas Gerais, quatro poetas e magistrados constituem os mais importantes cultores do arcadismo, se bem que Otto Maria Carpeaux separe Cláudio Manuel da Costa, pelo maior racionalismo e menores "vestígios do sentimentalismo pré-romântico".Grande entre todos eles, pelo sentido do ritmo e domínio artesanal, aparece Tomás Antônio Gonzaga, autor popularizado através das "liras" que celebram os amores de Marília e de Dirceu.

O tema do livro é amor. Amor cheio de pureza, em que se constrói um universo ideal, o poeta encarnado em pegureiro, a sua amada em pastora, conforme o vocabulário da escola. Os motivos são os tradicionais: da despedida, "Adeus, cabana, adeus; adeus, ó gado"; o das excelências do tempo passado "então só inocente / era de luso o reino. Oh! Bem perdido! / ditosa condição, ditosa gente!"; a indecisão do amante de duas amadas, o mon coeur balance entre Alteia e Dircéia, o mesmo lema do muito celebrado soneto de Alvarenga Peixoto: "Ou faz de dous semblantes um semblante / ou divide o meu peito em dois pedaços." Em Gonzaga é "Ou forma de Lavino dous sujeitos / ou forma desses dous um só semblante".
 
A versificação é pouco variada e, a par dos versos de quatro sílabas, melhor ditos, células métricas, vêm a redondilha menor, com acentuação em 2a. e 5a. sílabas; heróico quebrado, sempre em combinação; a redondilha maior; o decassílabo.
É possível começar com uma curiosidade, a das liras XXII e XXV [2a. parte] e II [3a. parte], entre outras, em que a palavra final de cada estrofe é oxítona ou monossílabo tônico, em ê de timbre fechado, salvo uma rima de timbre aberto. Na ordem, rimam: ter, vê, tem, ofender, cruel, seu acolher, crer. Outra curiosidade é a rima interna, posta sobre a cesura em final do soneto: "Pois quando só na idéia m’a retrata / debuxa os dotes com que prende, vista / esconde as obras com que ofende, ingrata".
E as figuras de repetição, sem muita pesquisa, podem ser registradas na sua freqüência, a começar pela epizeuxe: "ganhei, ganhei, um trono" - "verás, verás, Marília", "eu vou, eu vou subindo a nau possante"; esta mão, esta mão que ré parece"; "já, já me vai, Marília, braqueando"; "só foi, só foi Lucrecia".
Mas o Gonzaga não nos oferece apenas abundante material de retórica e arte poética; oferece, e isso é mais importante, poesia para o gosto dos eruditos e poesia que gera popularidade: sentimento e sentimental, intelecto e sensorial melancolia e lamentação. E, porque se trata de um grande poeta, vem sendo incluído nas histórias literárias de Portugal e do Brasil. Nasceu no Porto; fez-se voluntariamente luso, nos depoimentos da devassa, procurando descomprometer-se com a Inconfidência. Amou em Vila Rica, em verdade era pela liberdade do jugo português [um homem amedrontado não é um homem], se bem que se desdissesse ante o inquisidor.
 
 
Nasceu no Porto; fez-se voluntariamente luso, nos depoimentos da devassa, procurando descomprometer-se com a Inconfidência. Amou em Vila Rica, em verdade era pela liberdade do jugo português [um homem amedrontado não é um homem], se bem que se desdissesse ante o inquisidor.
Mas o Brasil anda na sua poesia: saudoso, recompõe o itinerário que vai do Rio à terra de sua bem : "Procura o Porto da Estrela / sobe a serra, e se cansares / Descansa num tronco dela". "Toma de Minas a estrada / Na igreja nova a que fica / Ao direito lado, e segue / Sempre firme a Vila Rica".
 

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